Quem roubou nossa coragem?

titulo

Por Fernanda Grandino

Hoje quando acordei e abri os olhos, vi um dia cinza e chuvoso, daqueles que não inspiram a menor vontade de deixar o conforto da cama quentinha para ir enfrentar as agruras do cotidiano. Respirei fundo, dei uma última abraçadinha no travesseiro e, bem quando o estava soltando e me preparando para levantar, lembrei: hoje temos um novo presidente interino. A vontade de levantar me abandonou de vez.

Virei para o lado, cobri a cabeça e tentei voltar a dormir para ver se na verdade era o contrário. Talvez isso tudo fosse um sonho e, se eu voltasse a dormir na verdade eu acordaria num mundo em que 54 milhões de votos valeriam alguma coisa. Inútil. Encarei o teto. Meu painel de fotos. Então olhei para a janela. Uns raiozinhos de sol estavam aparecendo. Levantei.

No caminho para o trabalho, olhando o feed de notícias do facebook, vi um gif de uma garota fazendo um tutorial sobre novos usos para o título de eleitor: aplicador de blush, sombra, delineador e rímel. Vi um outro post com uma foto de um título de eleitor picado. Um outro com outros usos para o documento, como mouse pad, limpador de unhas… Fiquei um bom tempo olhando para as novas sugestões até que a playlist do meu celular começou a tocar Mais do Mesmo e eu fechei os olhos.

…E agora você quer um retrato do país

Mas queimaram o filme…

Passei o dia todo incomodada. Quando olhava o feed do facebook, via notícias do ministério formado por Temer, sem nenhuma mulher ou negro. Vi que 7 dos 22 indicados às pastas são eram réus da (extinta?) operação Lava Jato. Vi que o Ministério da Cultura será absorvido pelo Ministério da Educação. Vi que o ministério das mulheres, igualdade racial e de direitos humanos será absorvido pelo ministério da Justiça e Cidadania – e seu líder será o até então secretário de Segurança Pública do estado de São Paulo. Vi o dia cinza se instalar e a vontade de levantar ir para cada vez mais longe. Mas então eu vi o discurso da Dilma.

Em sua fala, ressaltou que o impeachment é um golpe porque não recai sobre ela nenhuma denúncia de corrupção ou de crime de responsabilidade. Esse processo foi iniciado e conduzido por um réu que coleciona inquéritos e contas na Suíça, motivado por vingança pessoal, uma vez que não conseguiu convencer o governo a arquivar as investigações contra ele. “Não sou mulher de aceitar chantagem”, disse a Dilma. O impeachment foi apoiado por aqueles que querem invalidar 54 milhões de votos obtidos num processo democrático para jogar o Brasil no mesmo quadro que ocupava até 2002: endividado, no mapa da fome e humilhado perante a comunidade internacional. Pelo menos não terão de conviver com pobres e pretos nas Universidades e nos aeroportos.

A Dilma não é a melhor oradora que já tivemos à frente do nosso país, é verdade. Faltam a ela carisma e diversas habilidades sociais, que inclusive podem ter lhe custado o cargo. Mas ela tem uma história que me emociona muito. Durante seu discurso ela explicitou isso. Ela lutou a vida toda. Lutou contra a ditadura militar e foi até as últimas consequências. Lutou contra um câncer. Mas admitiu nunca ter esperado ter que voltar a lutar contra um golpe. Ela é vítima de uma injustiça que no Brasil é fatal e, como ela mesma disse, essa é a pior dor que pode enfrentar – pior que a tortura, pior que o câncer. E ela repetiu: da luta não se retira.

A luta pela democracia nunca deixou de existir. Agora perdemos uma batalha importante, é impossível não se abalar e não deixar a tristeza falar. Então deixemos. A situação é grave e a tristeza pode nos dar a sobriedade que precisamos para ver o vem por aí. Mas não nos deixemos abater. A desesperança sempre foi a bandeira dos apoiadores do golpe, não podemos nos render a ela. Não podemos dar a eles o gosto de nos ver impotentes.O preto é a cor deles. A nossa é o vermelho do sangue pulsante.

Então, quando o sol bater na janela do seu quarto, lembra e vê que o caminho é um só: Lute pela democracia. Não podemos nos despedir dela, afirmar que ela morreu, que fomos derrotados. Não podemos abrir mão do nosso poder e, por isso, temos que valorizar, mais do que nunca, o título de eleitor. Por mais criativas que as sugestões tenham sido, eu pretendo lutar com todas as forças que eu tiver para que a função desse pedacinho de papel continue a ser sempre a mesma – o de garantir o meu direito legítimo e inalienável de participação democrática. E ai de quem tentar impedir!

[na foto: Meu Título de Eleitor e os comprovantes de voto dos dois turnos da última votação, em que ajudei a eleger Dilma Rousseff]

Anúncios

Sobre Fernanda Grandino

estudante de jornalismo, taurina com ascendente em touro, corinthiana e completamente fissurada por televisão, cinema, música e literatura. Odeia Sonho de Valsa, ama sorvete de chiclete.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: