PUC-SP 21/03/2016

PUCSP 21032016

Por Fernanda Grandino

Cheguei à PUC pela Rua Monte Alegre por volta das 20h30 e, assim que cruzei a prainha e entrei no Prédio Novo comecei a ouvir um som alto, de palavras de ordem gritadas num microfone. A voz dizia coisas como “somos a maioria! Temos que lutar pela democracia, não podemos permitir um golpe”. Pensei comigo “oh, mas que grata surpresa, um ato pela defesa da democracia na PUC!”. Foi quando a voz disse “Pela defesa da democracia, pela defesa do Juiz Sergio Moro”. Epa….Me dirigi à sacada do quarto andar que dá para a Rua Ministro de Godói e pude observar um carro de som com uma faixa estampada com “PUC PELO IMPEACHMENT” e algumas dezenas de pessoas com bandeiras do Brasil e roupas verde e amarela. Alguns estudantes se aglomeravam na escadaria e ao redor do carro de som. Algumas tentativas de resposta aconteciam, mas a voz no microfone dizia “queremos agradecer ao pessoal que está aqui fazendo volume no nosso ato”. Respirei fundo. Nada de novo sob o sol: mais um dia em que eu não pertencia à PUC e a PUC não pertencia a mim.

Me encaminhei para a orientação de TCC e, ao sair da sala, ouvi a voz do carro de som dizer que eles eram democráticos e que no dia do ato “pró PT” ninguém atrapalhou os discursos feitos e nem pediu a palavra, então ele não precisava cede-la aos seus opositores que já cercavam o veículo (claro que ele não sabia que, durante o ato a que ele se referia, alguns moradores dos prédios próximos à PUC arremessaram ovos nos participantes do evento). Alguma confusão começou entre os manifestantes e a voz, já em tom histérico, começou a dizer que eles eram de paz e que estavam sendo agredidos – primeira aproximação policial. Conforme fui descendo os lances da rampa meu incômodo crescia. O discurso vazio de defesa do golpe contra a democracia e o Estado Democrático de Direito era inflado e tomado de ódio. Os “petistas”, como dizia a voz, é que eram os golpistas; O Sergio Moro era o herói que expôs a verdade; o Lula é cachaceiro e a Dilma estava manipulando o STF. Só conseguia pensar se era sério mesmo. Em determinado momento, acho que quando cheguei ao segundo andar, parei junto à varanda para observar a movimentação e pude ver uma das ideias mais geniais que um pessoal poderia ter tido: colocaram um Datashow no parapeito da sacada, conectado a um computador, projetando no prédio em frente à PUC palavras de oposição ao discurso odioso da voz. A cada sandice proferida ao microfone, uma contestação escrita no prédio. Até que escreveram “cuidado: o choque chegou”.

Eu não conseguia entender como é que ninguém estava reagindo à voz. Ninguém gritava nada contra eles, só assistiam parados, pendurados na sacada. Ao mesmo tempo eu repetia para mim mesma “você não vai descer. Você está de casaco vermelho, você é pequena. Isso é perigoso, você vai se machucar, você não vai descer e não vai gritar”. Gritei: NÃO VAI TER GOLPE. Ninguém me acompanhou e eu voltei a me calar. Respirei fundo e decidi ir embora. “A luta é grande de mais para mim, não sei quais as consequências disso, não posso enfrentar isso sozinha”. Foi quando eu ouvi as piores palavras que eu jamais imaginei poder ouvir dentro da PUC: viva a PM.

Aí já era demais. Desci até o subsolo e vi que havia uma movimentação maior de estudantes contrários ao golpe na rua. Me juntei a eles. Considerando a configuração do embate, o clima estava tranquilo. Havia um grupo de não mais do que dez policiais entre o grupo do carro de som e o grupo dos estudantes, que trocavam palavras de ordem. O grupo contrário ao impeachment, no qual agora eu estava inserida, começou a se aproximar do carro de som e, consequentemente, da PM que, em poucos instantes, iniciou sua segunda investida. Avançaram sobre o grupo de estudantes com os escudos, os cassetetes e as armas de bala de borracha em riste – quase tão gentis quanto foram na remoção do pessoal que ficou mais de 30 horas na Paulista na semana passada, sabe? Corremos para longe e eu subi a escadaria da PUC. O Choque recuou e voltamos para a rua. Eles voltaram a gritar “viva a PM”, ao que respondíamos “Não acabou, tem que acabar: eu quero o fim da polícia militar!”.

https://www.facebook.com/brasildefato/videos/1058105207570776/

Nosso grupo foi crescendo gradativamente e, em pouco tempo, nosso grito se sobrepunha aos berros da voz com microfone. Só parávamos de gritar quando eles punham músicas. Nossas músicas. Músicas compostas por pessoas que discordam da posição deles, que defendem a democracia, condenam o abuso de poder, a violência policial. Foi quando tocaram “Até quando” do Gabriel o Pensador que a ignorância deles ficou clara para mim. Há menos de 20 minutos eles estavam aplaudindo a polícia militar para depois tocar, no volume máximo, uma música que contém os versos “A polícia matou um estudante, falou que era bandido, chamou de traficante”. Eles não faziam a menor ideia do que estavam fazendo lá. Eles estavam em uma Universidade que foi pólo de resistência ao regime autoritário, que ao longo de sua história, foi palco do livre pensamento e da liberdade de ideias e cuja reitora na década de 1970, a professora Nadir Kfouri, proibiu a entrada dos militares no prédio. Eles só sabem reproduzir discursos que não foram eles que criaram, sem refletir sobre o que está sendo dito, sem perceber quem está por trás do que eles defendem, sem medir as consequências das ações que eles esperam que sejam tomadas. Eles pediam, ao mesmo tempo, pela renúncia e pelo impeachment da presidenta. O ódio e a ignorância estão de mãos dadas e essa nunca é uma combinação feliz.

Perto das 21h40 a voz no microfone disse que, para não incomodar a vizinhança, estariam encerrando o ato após a execução do hino nacional. Pensando na dispersão de todo aquele pessoal e na possibilidade de eu ter que pegar o ônibus com a galerinha do outro lado, optei por sair da rua antes do hino e ir me encaminhando à Rua Cardoso de Almeida, onde ficam os pontos de ônibus. Conforme eu entrei no prédio e subi um lance da rampa percebi uma movimentação diferente na rua: os manifestantes pró impeachment desceram do carro de som e se perfilaram frente ao grupo de estudantes contrários ao impeachment – sempre, é claro, com a digníssima PM posta entre os grupos e voltada para o grupo contra o impeachment, apontando suas armas para os estudantes na rua e também para os que estavam na escadaria e pendurados nas janelas. Ao fim da música, os grupos começaram a gritar e, enquanto os estudantes contra o impeachment gritavam pelo fim da PM, os policiais começaram a disparar bombas de efeito moral, balas de borracha e avançavam sobre os estudantes, enquanto o outro grupo rapidamente se dispersou. Eu vi tudo isso da janela e tentei filmar, mas confesso que senti medo e me abaixei. Quando levantei, estava pronta para gritar contra a PM e os seus apoiadores, mas senti a garganta fechar e o nariz arder. O tal gás de efeito moral. Os estudantes dispersaram e eu fui embora tossindo.

Acho que foi o primeiro momento, desde 2011, em que estar na PUC fez sentido na minha vida. Pensei na Iara Iavelberg. Em 2013, quando assisti ao documentário “Em busca de Iara” (disponível no netflix) fui tomada por uma emoção tão forte que me fez chorar quase durante todo o filme. Num determinado momento, um médico que a ajudou na Bahia se emociona ao lembrar dela e diz “uma moça frágil daquela é que ia mudar o destino do Brasil?”. Ela não era muito mais velha do que eu sou, quando foi morta pelos militares. Ela lutou ao lado do Lamarca porque acreditava na democracia. Ela também deve ter tido medo, mas não se retirou da luta, mesmo sendo só uma menina.

Eu não sou a Iara. Eu não vou mudar o destino do Brasil. Nós vamos.

#NãoVaiTerGolpe

 

[foto: Fernanda Grandino]

 

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Sobre Fernanda Grandino

estudante de jornalismo, taurina com ascendente em touro, corinthiana e completamente fissurada por televisão, cinema, música e literatura. Odeia Sonho de Valsa, ama sorvete de chiclete.

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