Vamos acabar cegos

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Por Fernanda Grandino

Gastamos tanta energia criticando a Rachel Sheherazade, mas nunca se falou nada (pelo menos eu nunca vi nem a menor menção) a respeito de um quadro do programa CQC, exibido às segundas-feiras à noite na Band e que tem o objetivo de misturar humor e algum tipo de jornalismo. A atração é intitulada “Olho por olho”, em referência à Lei de Talião, descrita no Código de Hamurabi, cuja elaboração data de aproximadamente 1700 a.C. .

Neste quadro, o programa realiza pegadinhas para criar “flagrantes” de casos que sim, são graves, merecem atenção e debate. A questão é que, ao registrarem as transgressões da lei na situação forjada por eles, não acionam nenhuma autoridade competente, não problematizam a questão, não estabelecem nenhum questionamento sobre a situação e se limitam a intimidar violentamente o suspeito/acusado/culpado (tudo de uma vez no julgamento da produção e edição do programa) que invariavelmente sai correndo e foge.

Assustado? Sim, talvez. Com alguma mudança na sua conduta? Pouquíssimo provável. Se intimidação e/ou qualquer outra forma de violência fosse uma boa alternativa para suprimir comportamentos socialmente condenáveis, não teríamos problema de reincidência nas cadeias, por exemplo.

O quadro é exibido com tom heroico, civilizatório e apaziguante: “alguém está fazendo alguma coisa”. José Luiz Datena (também da Band), Marcelo Rezende e Luiz Bacci (Record) lavam diariamente a consciência do famigerado “cidadão de bem”, com sangue e argumentação torpe, retrógrada e deformada. E depois criticamos a apresentadora do SBT por incitar o linchamento de um “marginalzinho” (sic) que supostamente estava praticando furtos no Rio de Janeiro, fazemos alarde sobre o fato de que 65% dos brasileiros acham que mulheres que exibem seu corpo em público não só estão sujeitas a sofrerem violência sexual, como merecem os ataques, como foi explicitado pela pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)*.

É tamanha confusão de valores, desinformação e propagação de erros que entramos numa bolha de ódio e intolerância que nos torna cegos, surdos e mudos, andando por aí dando com a cara em muros, sem ver por onde seguir, repetindo discursos prontos e esvaziados que, reproduzidos aleatoriamente cada um mais alto que o do oponente para se fazer ouvir à força, entopem os ouvidos e não permitem a captação de nada lúcido.

Nos batemos física e intelectualmente, sem nunca encontrar consensos e abandonando o completo respeito pela integridade do outro. A violência é a regra, a agressão é a conexão e a ignorância o solo fértil para tal cenário. “O horror, o horror”, diria Coronel Krutz, antes de Willard estourar suas bolhas de insanidade nas florestas do Vietnam.

Este é o fim, belo amigo. Dos nossos elaborados planos, de tudo que resta, o fim. Sem salvação ou surpresa, o fim. Eu nunca olharei em seus olhos de novo.

Quisera eu saber jogar pinball.

[na foto: o conselho de “Quase Famosos” que pode salvar nossa geração]

*No dia 04 de abril o IPEA liberou nota informando que o resultado inicial da pesquisa estava errado. O percentual correto é de 70% contra e 26% a favor da afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Mais infos:
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1435877-pesquisa-que-indica-apoio-a-ataques-a-mulheres-esta-errada-diz-ipea-so-26-concordam.shtml

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Sobre Fernanda Grandino

estudante de jornalismo, taurina com ascendente em touro, corinthiana e completamente fissurada por televisão, cinema, música e literatura. Odeia Sonho de Valsa, ama sorvete de chiclete.

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