Vergonha – substantivo feminino

Imagem

Por Fernanda Grandino

A Revista Capricho passou por uma semana conturbada, para dizer o mínimo. Começaram a má fase publicando um texto em que ensinavam as leitoras a se adequarem em duas categorias – meninas para ficar versus meninas para namorar – como classificações de commodities, de acordo com a opinião de um consumidor final: um garoto. Erro feio, erro rude, ainda mais para uma publicação destinada a meninas em fase de formação (de 12 a 16 anos, mais ou menos). A Nina Lemos já deu bem conta desse episódio e, aliás, a indignação foi tão grande que a revista tirou a matéria do seu site.

Apesar de se julgar apta a ensinar as meninas a como agradar seus futuros homens, dando espaço para que eles digam exatamente o que querem delas, o pessoal da revista não é lá muito bom em aprender com os próprios erros. Poucos dias depois, uma nova polêmica, ainda maior, surgiu com a divulgação de um texto na seção destinada à discussão da sexualidade. Nele, uma leitora relata que sua primeira experiência sexual aconteceu porque ela estava em casa com um rapaz, “dando uns amassos”, ele começou a forçar a barra, ela teve vergonha de dizer não e o ato aconteceu mesmo com o desconforto experimentado por ela – que levou dois anos para conseguir ter outra relação sexual (com outro rapaz). Tudo isso no tom de quem diz “comprei uma blusa cara que não gostei muito, porque o vendedor insistiu”.

O que mais me impressionou nesse caso foi o fato de a revista ter divulgado um relato com tamanha dramaticidade como se fosse algo extremamente trivial, para meninas que estão em fase de formação. Uma completa banalização de uma violência sexual, que inclusive abriu margem para comentários ainda mais assustadores do que o fato em si, exaltando como na verdade era tudo exagero de uma menina burra que deu e se arrependeu. Quem mandou chamar o garoto para sua casa, afinal de contas? Quem mandou não dizer, desenhar, encenar e emitir sinais de fumaça enunciando um nítido e eloquente NÃO?

Mas mais do que isso, o que realmente ficou na minha cabeça foi o fato de que ela teve vergonha de tentar impedir o cara de fazer sexo com ela. Vergonha de dizer que não queria nenhuma parte do corpo dele dentro do corpo dela, como se esse não fosse um dos seus direitos primordiais.  E há comentários de sobra a chamando de estúpida por isso. Porque a repressão sobre as meninas é tão grande e irrestrita que nos reprimem até por sermos reprimidas.

Ao mesmo tempo, a novela das nove “Amor à vida”, exibida pela Globo, tem uma personagem obstinada a perder a virgindade, passando pelas mais diversas situações (todas vexatórias) sem nunca conseguir atingir sua meta, o que faz dela motivo de chacota até em seu local de trabalho. Essa semana, ela protagonizou uma cena dramática em que é drogada em uma festa por um rapaz “gato” que a leva para casa e rouba tudo que ela tem de valor. Mas ela permanece virgem.

No ano passado a mesma emissora exibiu um remake de “Gabriela Cravo e Canela”, com José Wilker no papel de Coronel Jesuíno, homem sisudo, que caiu na graça do povo por se dirigir à esposa com a frase “se lave porque hoje vou lhe usar” em referência à consumação de seus “direitos conjugais”. Na trama ele assassina a mulher e o homem com quem ela tinha um caso, ao pegá-los nus na cama. A frase acabou virando um bordão e passou a ser utilizada nos mais diferentes contextos. O fato de que ele tratava a esposa como um objeto passou para segundo plano, também por se tratar de uma novela de época. “Hoje em dia as coisas são diferentes!”.

Eu, de modo algum, me considero uma feminista. Aliás é frequente que eu discorde de alguns grupos feministas. Estou longe de ser uma pessoa politicamente correta e acho que essa caça ao bullying que se instaurou nos últimos anos é um tanto quanto exagerada. Mas esse caso realmente me fez pensar que há mesmo uma diferença brutal na forma de tratamento destinada às meninas. E eu não estou nem falando das mulheres que são assassinadas na Índia ao darem a luz a meninas, ou das bebês do gênero feminino que são abandonadas diariamente na China.

Falo das meninas que todos os dias precisam trocar de roupa para se sentirem a vontade quando precisam andar na rua, de ônibus ou metrô; das que são chamadas de vagabundas por não submeterem suas vidas sexuais a julgamentos externos; das que são chamadas de mal-comidas ao recusarem um homem. Falo de todas que foram vítimas, mas acabaram responsabilizadas pelo próprio trauma.

[na foto: José Wilker na pele do asqueroso Coronel Jesuíno em “Gabriela”]

Anúncios

Sobre Fernanda Grandino

estudante de jornalismo, taurina com ascendente em touro, corinthiana e completamente fissurada por televisão, cinema, música e literatura. Odeia Sonho de Valsa, ama sorvete de chiclete.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: