Partido do coração partido

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Por Fernanda Grandino

Sempre gostei de dar conselhos amorosos a todas as minhas amigas. Acho que tem a ver com a quantidade de novelas, filmes e músicas melosas eu consumi em toda a minha vida. E isso também serviu para que, desde muito cedo, eu apreciasse uma boa fossa, mesmo que não tivesse ninguém por quem sofrer. Tipo o que o John Cusak fala naquele filme Alta fidelidade. Não dá pra saber se eu escuto as músicas porque eu estou infeliz ou se eu estou infeliz porque eu escuto as músicas.

A primeira vez que assisti Sintonia de amor me identifiquei na hora com a personagem da Meg Ryan, quando sua melhor amiga diz, de forma incisivamente cruel, “você não quer se apaixonar. Você quer se apaixonar em um filme”. E quem não quereria? Veja o final deste mesmo filme: o Tom Hanks cruza os EUA para encontrar uma moça que ele só conhecia por carta e telefone e eles ficam juntos, de uma forma sutil e delicada, no Empire State Building. Quem não quer esse tipo de resolução para os conflitos afetivos?

Eu quero me apaixonar em um filme.

E acho que, de certa forma, é o que tenho feito repetidas vezes. Isso porque cada vez que conto as minhas histórias amorosas para minhas amigas as respostas geralmente são “eu não acredito! Essas coisas só acontecem com você mesmo!”. E eu não me sinto especialmente feliz com isso. Porque, por mais que Cold Mountain seja um dos meus filmes favoritos, não é nesse tipo de filme que eu quero me apaixonar. Mas acaba sendo. As vezes, em delírios hiperbólicos e megalomaníacos sinto que o verso do Vinícius “a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida” só pode ter sido inspirada nessa minha trajetória, curta é verdade, mas completamente torta pelos caminhos do amor – uau, o quão brega ficou isso?!

Pensei até em tatuar a frase, mas a esperança é que minha melhor amiga esteja certa e que algo muito bom esteja por vir. Segundo meu horóscopo para 2013, será em setembro -vamos aguardar. Aquela velha e boa merda de “quando você menos esperar…”. Um clichê ridiculamente irritante, justamente por ser tão honesto. Todas as vezes que me apaixonei, verdadeiramente, foram em momentos de total e completa surpresa. Todos eles valeram a pena e eu sinto falta deles, mas não voltaria atrás em nenhum. Como diria o Renato Russo “és parte ainda do que me faz forte e pra ser honesto só um pouquinho infeliz…”.

Ter o coração partido é algo que todos tentamos evitar. Li uma vez num livro que é como ter a costela quebrada: por fora parece tudo bem, mas dói toda vez que respiramos. Perdemos o chão, o eixo, o rumo. Porque acabamos depositando em outras pessoas todas as nossas expectativas e é muito comum que elas não sejam atendidas. Eu já chorei MUITO. De ficar sem comer, sem vontade de levantar, inerte e entregue ao sono. Dói pra cacete. Mas passa. E quando a gente suporta a dor ela deixa um bocado de coisas boas que a gente guarda pra sempre. Um monte de histórias em que fomos muito felizes e um monte de lições, para voltarmos a sê-lo. Porque a desilusão não é o oposto do amor, é parte dele. E não é porque o relacionamento acabou e as pessoas seguiram caminhos diferentes que o que elas compartilharam não foi verdadeiro.

E eu não abro mão de coisas novas pelo medo de chorar. Espero que meu coração se parta e se reconstrua muitas outras vezes.

[na foto: Meg Ryan e Rosie O’Donnell em cena de “Sintonia de amor” na qual elas assistem “An affair to remember” e sonham com um Cary Grant para si mesmas]

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Sobre Fernanda Grandino

estudante de jornalismo, taurina com ascendente em touro, corinthiana e completamente fissurada por televisão, cinema, música e literatura. Odeia Sonho de Valsa, ama sorvete de chiclete.

Uma resposta para “Partido do coração partido

  1. Regina

    O animal humano, homem, sonha. O homem não vê a realidade, aquela a que Jung se refere como sombra, portanto nada sabe de si, a não ser o que as crenças e conceitos coletivos lhe dizem. O homem não questiona o por quê, não vai atrás do que está além dos conceitos aprendidos, não questiona a causa, só vê os efeitos. A inteligência que rege, gerencia o homem está adormecida, inconsciente e assim se move naquilo que chamamos de vida.

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